Como me tornei uma empreendedora

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Eu sempre uso uma frase: “Empreender não é ter um CNPJ”. Não achei o autor, mas é a frase que me levou a inúmeras reflexões.

Sabe aquelas meninas franzinas, de pernas compridas, que usavam óculos fundo de garrafa da década de 90 e tinha como apelido quatro olhos? EU.

De uma família humilde, onde meus pais não tiveram a oportunidade de concluir o ensino fundamental. Minha mãe costureira e vendia as roupas que fabricava na Feira Hippie, e meu pai trabalhava como motorista do transporte público de Goiânia.

Tudo era muito difícil naquela época, cidade nova (meus pais e eu viemos de Minas Gerais) dinheiro curto, muitas contas e dois filhos para criar (meu irmão é goiano).

A solução encontrada para aumentar a renda em casa foi alugar uma banca na Feira Hippie para mim. Isso mesmo! Minha mãe alugou uma banca para dividir com uma amiga dela, e me colocou como vendedora de camisetes infantis (nem sei se isso existe hoje…rsrs). Eu tinha exatos 7 anos e mal sabia passar o troco. A ideia é que essa amiga da minha mãe me ajudasse. Afinal, minha mãe estaria vendendo em outra banca do outro lado da Feira.

Foram alguns trocos errados, algumas vezes me perdi na feira tentando achar minha mãe (era anunciada com frequência na Rádio Hippie, a rádio local). E as minhas vendas só aumentavam. O que eu ouvia dos clientes nessa época era “que bonitinho”, “vou comprar para ajudar, tá?” e no final eu terminava sem mercadorias e com uma sacolinha cheia de dinheiro (cartão não era difundido como é hoje) para levar pra casa e ajudar meus pais. Isso perdurou até eu completar 16 anos.

Aos 15 anos, conheci a Junior Achievement Goiás, uma associação educativa sem fins lucrativos, cujo objetivo é despertar o espírito empreendedor nos jovens, ainda na escola, estimulando o seu desenvolvimento pessoal, proporcionando uma visão clara do mundo dos negócios e facilitando o acesso ao mercado de trabalho.

O projeto que participei foi o Miniempresa, que proporciona uma experiência prática em negócios por meio da organização e operação de uma empresa. Aprendemos desde a vender uma ação para montar o capital social, papéis das áreas de uma empresa, mercado, produção e comercialização. E para variar, não foi nada fácil, quase falimos, mas ganhamos como “produto destaque”. Era um aquário decorativo.

Uma experiência que se eu pudesse teria vivido muito antes! E recomendo a todos viverem!

Aos 16 anos iniciei um curso de informática básica, (sim só em 2007 que conheci um computador e a internet) e meu desempenho chamou a atenção do instrutor que logo me convidou para ser monitora de outras aulas, para ajudar os alunos com dificuldade. Naquela época a proposta era sem salário e o dinheiro do vale transporte. Eu topei. E aos finais de semana continuava vendendo roupa na Feira Hippie com minha mãe e meu pai (nessa época ele já tinha saído do trabalho de motorista).

Em 2008 (17 anos), a Junior Achievement me convidou para trabalhar como estagiária da área de gestão de projetos. Onde aprendi muito sobre projetos, gestão, organização, visitava as escolas, conheci muitas pessoas da minha idade e muitos empresários que eram voluntários do projeto.

Atuei por um ano e recebia meu salário que ajudava minha mãe com um pouco das despesas da faculdade de Sistemas de Informação, que eu havia começado no mesmo ano. Com o estágio e a faculdade, tive que abandonar a Feira Hippie. Os finais de semana passaram a ser de estudos.

Foram 4 anos de faculdade e sempre trabalhava para ajudar nas despesas dos meus estudos. Fui suporte técnico de internet, estagiária de gestão logística e em 2011 uma professora da faculdade notou minha facilidade com gestão de projetos e me convidou para ser sua estagiária no Tribunal de Justiça de Goiás – TJGO, no escritório de projetos. Ela foi e sempre será meu anjo e minha mestre, uma admiração que até hoje temos uma pela outra. Com a ajuda do meu anjo, iniciei uma pós-graduação em gerenciamento de projetos em 2012 e nos tornamos sócias de uma consultoria de gestão de projetos e planejamento estratégico.

Em 2013 fui trabalhar com outro mestre/anjo na Agência Goiana de Defesa Agropecuária, na área de TI. O que era para ser uma redatora de editais de compras de equipamentos, me tornei analista de sistemas com uma equipe de programadores/desenvolvedores que me inspiram até hoje. Essa fase foi difícil, tudo novo, mas eu precisava ser inserida na TI, afinal eu tinha feito Sistemas de Informação.

Até que no final de 2014, recebo uma proposta irrecusável, de assumir a coordenação do escritório de planejamento do Tribunal de Justiça de Goiás. Meu terceiro mestre e anjo, havia me conhecido como estagiária em 2011 e apostou tal responsabilidade e confiança a mim, em um cargo tão importante.

Foram 3 anos no TJGO (depois de estagiária), os dois primeiros como coordenadora do escritório de planejamento e o outro como Diretora de Gestão e Acompanhamento de Metas da Corregedoria-Geral da Justiça. Sinceramente, minha maior escola. Aprendi a como me comunicar com vários públicos, a como ser formal e informal, desenvolvi habilidades de negociação, comunicação, relacionamento interpessoal e muitas outras.

Ao mesmo tempo que estava no TJGO, ousei fazer outro voo em paralelo, e comecei minha carreira de docência, em 2016. Ministrava aulas de gestão de projetos, gestão de TI e governança de TI para os cursos de Sistemas de Informação, administração e engenharias.

Sem contar que atuava como voluntária na Junior Achievement, no Project Management Institute PMI – Chapter Goiás e na Federação das Associações de Empreendedores e Empresários do Estado de Goiás (FAJE Goiás). Por que sempre acreditei que é fazendo o bem a outras pessoas, impactando positivamente a vida delas, que eu podia retribuir de alguma forma tudo o que um dia as pessoas fizeram por mim. E até hoje sigo esse valor, que para mim é fundamental.

Até que no final de 2017, conheci uma pessoa que ia fazer uma volta ao mundo. Naquele momento meus olhos brilhavam e eu tremia de êxtase e de vontade de fazer o mesmo. Mas na minha cabeça vinha um turbilhão de ideias, do tipo: “como você vai conseguir”, “você vai largar seus 3 empregos, para ir nisso”, “você vai abrir mão de um excelente cargo no TJGO”, “você vai largar seus alunos”, “você não sabe falar inglês”, mas venci tudo isso e empreendi na jornada de planejar essa viagem.

Em janeiro de 2018, embarquei nessa volta ao mundo. Fiquei 6 meses fora do país, fiz um trabalho voluntário com crianças com Síndrome de Down na Colômbia, conheci 13 países e 27 cidades (contando o Chile e China que havia feito em 2017), aprendi espanhol, ainda tenho dificuldades em falar inglês e trabalhei na startup que eu era sócia (não foi totalmente sabático).

No fim de 2018 me mudei para São Paulo para atuar como consultora de projetos para implantar um Project Management Office — PMO e gerenciar alguns projetos.

Agora em 2019, fundei o Viajar sem Complicações. A ideia desse projeto é ajudar as pessoas a realizar o sonho de viajar — seja o mundo, ou aquela viagem de férias ou um mochilão — utilizando técnicas leves e divertidas de planejamento que façam você tirar seu sonho do papel.

Para me ajudar nessa empreitada fiz o convite para a Juliana Freitas …………#arquitetaviajante #RTWdajuh ser minha parceira. Hoje ela mora em Londres, mas topou seguir essa jornada de empreendedorismo comigo.

Em resumo, aquela menina franzina, que estudou em escola pública, pagou sua faculdade, têm uma família humilde que se esforçou para me dar o estudo que eles não tiveram, conseguiu empreender, mesmo diante de tantas dificuldades.

Empreender é muito mais que ter um CNPJ, é ter a capacidade de identificar as oportunidades, estabelece estratégias que vão delinear o futuro e FAZER. Por mais, que seja difícil, não há nada impossível. Basta você planejar e tirar as coisas do papel. Sair do campo dos sonhos e se jogar em uma jornada que você não sabe qual será o resultado final, mas você está disposto a arriscar.

Empreender gera aprendizado, afinal nada te faz mover mais do que colocar-se diante de riscos, de cenários não conhecidos e de situações novas. Mesmo que você fracasse tristemente, isso representará uma vitória enorme, por que você foi e fez.

Aos 7 anos eu não sabia o conceito de empreender, mas fui e fiz. E sempre continuei aproveitando as oportunidades, mesmo não sabendo por onde elas podiam (podem) me levar.

Quer empreender? FAÇA.

Quer ter um CNPJ? TENHA.

Só não deixe a vida passar.

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10 Responses

  1. Raphael Ferreira

    Ótima história. Realmente mostra como na vida existem horas que a gente faz é procurar dificuldades como desculpa para não seguir nossos sonhos, em vez de procurar formas de correr atrás dos mesmo. Sensacional.

  2. Angela

    História de vida sensacional e motivadora, Parabéns!. Com certeza vai inspirar muitas e muitas pessoas a acreditar e seguir em frente aproveitando todas as oportunidades no caminho.

    Abraços e muito sucesso!!!

  3. Marjorie Lynn

    Sua história é muito linda! Parabéns Mi! Me emocionei e me emociono vendo a mulher competente que você é! Me insipira a correr atrás, sempre 🙂

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